Trinta

15/02/2021

Em algum dia de 2021 - não sei qual - está meu trigésimo aniversário como cavaleiro. No tempo de Senna e de Collor, o acaso levou-me ao dorso de uma égua idosa em um redondel de mourões e cordas, no que era uma escola de equitação de um sonhador de enorme coração...

Certo de que há por aí muitas outras escolas como essa, onde às vezes uma semente calha de cair em terra (fértil ou não), estive pensando o que eu diria de útil ao, digamos, meu eu-adolescente. Para crianças bastam a diversão, o contato (no sentido leigo da palavra),o cheiro de cavalos e alguma segurança, mais um par de regras, e pronto.

Quero escolher um conselho, sabendo que deixo de lado todo o resto. Por isso são tão imprecisas essas listas de revista. Detesto “os dez mais” qualquer coisa. Mas isso é outro assunto. Eis o que eu diria: que o Adestramento acontece quando os movimentos são fluentes e desembaraçados, que a natureza equina envolve um nível de maleabilidade que está muito distante da maior parte de nós. Somos uns torpes.

Então, em linguagem mais acessível, eu diria assim: “Não seja um fardo”. Nenhuma ajuda pode ser eficaz enquanto não temos a habilidade de ceder fisicamente ao movimento do cavalo. Seguir o movimento do cavalo, essa deveria ser a habilidade-chave - minha opinião. Tire os estribos. Mude de sela. Tire a sela. Respire. Ou seremos sempre uns reativos, umas coisas desconectadas do cavalo.

Em outras palavras: se a base da escala de treinamento é ritmo e descontração, parece razoável dedicar um certo esforço a compreender “na carne” do que se trata o ritmo e a descontração - ou todas as esporas, freios e até mesmo os cavalos mais caros da praça não bastarão para uma boa experiência.

A boa notícia para quem não teve esse alerta em tenra idade: é possível aprender a fazer coisas maravilhosas com o corpo. Na minha pesquisa a respeito, vejo boas notícias de gente que começou a praticar artes marciais (suspeito que capoeira deveria entrar aqui), dança, patinação, yoga e feldenkrais. No meu caso, os dois últimos.

Veja que isso passa longe da técnica, do uso das ajudas, da estratégia de treinamento de cavalos novos, da preparação de provas. É o início. Consta, aliás, que os cavaleiros da Spanische Hofreitschule, a tradicional Academia de Viena, chegam a montar até três anos sem estribos nem rédeas, na guia, até que sejam autorizados a controlar a própria montaria pelo picadeiro.

Dois seres distintos e unidos pelo movimento: podemos pensar se isso existe. É o desejo: se é realizável, não se sabe. Mas torna nosso percurso a cavalo (e ele é longo) um percurso desejante.