Avalanche

16/01/2020

Vi na TV uma vez que num desses refúgios lá no alto do Monte Branco, um turista daqui do Brasil, que tinha se servido de dois torrões de açúcar e uma xícara de chá, e que tinha usado apenas um torrão, jogou pela encosta o segundo, e a pedrinha rolou, aos poucos arrastou mais e mais neve, até uma avalanche descer em cascata.

Pois fiz algo assim, algo como jogar um torrão de açúcar (e cavalos adoram um torrão de açúcar, não é mesmo? como maçãs e cenouras, até mais) só que não era açúcar, eu nem tinha açúcar. Não sei o que fiz. Alguma merda, né? Sei que saiu correndo, um pânico, as rédeas ainda soltas, acelerou, aquela descida, o terreno irregular, e veio vindo a curva de nível, uns pensamentos inúteis, um grande golpe, como catapulta, ar, e no chão duro. Ah, minhas costas, talvez dessa vez me machuquei, pensei, enquanto via o cavalo, ainda em pânico, corcovear. Você conhece essa palavra, “corcovear”? Claro que outras coisas devem ter influenciado, o dia mais frio, talvez umas outras falhas, como quando um Boeing cai no oceano, sabe, um conjunto de fatores, todos eles apontando para o chão.

Talvez quisesse dizer essas coisas — todas elas — ao primeiro médico que viesse. Assustado, olhava para o teto enquanto podia ouvir enfermeiros falando de turnos e férias. Até que uma cabeça surgiu.

- O que aconteceu?

- Caí do cavalo.

- Estava bem paramentado?

- Estava — mentira. Não usava capacete.

-Dói aqui?

-Não.

-Aqui?

-Não.

-Aqui?

- Não.

- Aqui?

- Ai! Dói.

Depois sobra o medo, esse que ronda o travesseiro quando tudo silencia… já viram esse filme mental onde a queda volta de novo, e de novo, e de novo? É quase um delírio, fantasia, mentira. Para você, conto um segredo — e agora é verdade. Lá em cima do Everest fica uma palhaça perversa, chama-se Ingenuidade. Aviso a quem quiser escalar: ela joga pedras, as pedras rolam, vem a avalanche. Mas e o medo? Não nos iludamos, caros alpinistas. Talvez vocês ainda não saibam, mas esse medo que fatalmente algum dia levaremos ao travesseiro chama-se “medo da morte”, e é branco e gelado. Ponha seus óculos escuros e atravesse. Depois é só montar de novo, e de novo, e de novo.