“Não se amplia a voz dos idiotas” — dizia Millôr.

14/12/2019

Olho para a primeira folha desse caderno (agora no lixo) e temo entornar mais combustível nesse assunto que já pega fogo há tempos.

No entanto, isso aqui requer mesmo uma dose extra de coragem. Vamos lá, rápido como quem arranca um esparadrapo: hipismo não é abuso de animais. Se você discorda, esclareço: não o chamo de idiota assim, “na lata”. Apenas uso uma frase de efeito para marcar minhas convicções, OK? E vamos cultivar certa leveza, nada de começar falando de dor e sofrimento. É bem mais legal falar de literatura.

Na “Revolução dos Bichos” (George Orwell, 1945) um dos personagens, Sansão, é um cavalo. É o bicho que mais trabalha, sempre, e de bom humor. Muitas coisas acontecem até que Sansão é ludibriado e explorado até a exaustão pelo porco Napoleão, numa passagem normalmente interpretada como a mão de Stalin sobre a população russa (pronto, chegamos ao sofrimento). Se Orwell tinha a mesma intimidade com cavalos que tinha com o preparo do chá, não sei. O fato é que cavalos parecem ser assim, aceitadores resignados do destino. Estoicos, até.

Pois sim, é facílimo abusar de cavalos. No esporte amador, no profissional, na criação, em todos os lados. Os resultados são lesões físicas, distúrbios comportamentais, elevados níveis de stress — tudo cada vez mais relatado, delatado, documentado. Mas muitas vezes o abuso acontece sem brutalidade ou intenção, mas por ignorância mesmo.
Vocês já leram o início do Regulamento de Adestramento? Ou só repetem que o adestramento deveria ser a “mãe das modalidades”? Vejamos:
0 objetivo do Adestramento é o desenvolvimento do cavalo, de modo a torná-lo um atleta feliz, através de uma educação harmoniosa.

“Atleta feliz”, está escrito. Acho que não preciso continuar, mas vou. Se você faz hipismo e não conhece a Escala de Treinamento, se você não se interessa em estudar as características naturais do seu cavalo, se não existe empenho em equilibrar-se corretamente sobre o dorso do seu cavalo, e se você não se preocupou em iniciar a doma do seu potro corretamente, você está bem adiantado na rota do abuso. Ainda que não saiba — e você nem espanca o bichinho, talvez até mesmo lhe dê umas cenouras, açúcar, maçã, biscoitos apropriados, ou talvez você pague tratamentos sofisticados para ele. Em vão.
Montar bem e cuidar direito dos cavalos não é só uma responsabilidade que temos com esses bichos que nossos antepassados domesticaram, criaram, selecionaram e cujos habitats destruíram total ou parcialmente. Não é só ganhar as competições. Aprender a “ler” o que nos diz um cavalo — ao nosso lado ou logo abaixo — é uma chance preciosa de deixar nossa miopia de lado e entrar em contato com uma verdade cada vez mais necessária: (a) gente também é animal.