Experiencia

13/11/2019

Já faz algum tempo, um grande cavaleiro me disse que o seu trabalho como treinador era como o de um pintor que, ao olhar para a tela, percebia onde era preciso um retoque, uma cor, um pouco mais de luz (ou de sombra). Tudo lento, tinta a óleo. Precisa esperar secar, voltar a observar no dia seguinte, e no outro, e no outro.

Assim dá para ter experiência - boa experiência. Assim podemos (palavras de outra grande treinadora) focar nos pequenos avanços, muito mais do que nas grandes dificuldades, e sobre eles pavimentar um caminho, dia após dia. Porque as dificuldades estão sempre por perto, não?
Por perto, e desafiando-nos: talvez um dia, ou muitos, são grandes e ocupam todo o espaço. São dias cheios de dúvidas, onde montar pode ser uma atividade dura e cheia de insegurança.

“It takes a lot of passion to learn how to ride” ouvi de um terceiro, certa vez. De fato, esta foi numa manhã difícil, fria. Mas também essas passam, e haverá um dia seguinte. Com cavalos, “o dia seguinte é sempre a coisa mais importante”, ouvi uma vez. Não se trata de protelar, claro, mas de conservar a possibilidade de fazer melhor, sempre.
Mas não para sempre. Um dia percebemos abaixo de nós uma respiração mais ruidosa, talvez menos força física - às vezes com pelos brancos que começam perto dos olhos ou em volta do focinho. Começa a ser a hora de parar, aos poucos, e reconhecer ali uma trajetória viva.

Por isso esse pequeno texto é dedicado aos mais velhos, aos que sabem das coisas. É permeado de ideias que escutei dos humanos e de sensações que conheci com os cavalos.