Yoga e Adestramento

25/09/2019

Escrever sobre Yoga é perigoso. O assunto é extenso, dos mais antigos, e não tenho nenhuma formação que me permita ensinar nada disso aos outros.

Por outro lado, após dez anos de prática — com algumas interrupções — percebo que a graça está em deixar que os efeitos dessa tradição, meio estranha a nós, ocidentais, ultrapassem as bordas do mat, o “tapetinho”. Pretendo mostrar aqui que o nosso esporte, o Adestramento, é um prato cheio para isso.

Em competição com Akira AMM (Créditos: Tata de Fiori)

Alguns colegas do mundo hípico ficam surpresos quando digo que praticar um pouco de Yoga me ajuda muito a montar. Outros me olham com essa cara de que “isso é óbvio”, e alguns (poucos) imediatamente querem saber o motivo. Às vezes, e mais raramente, a pessoa escuta e, alarmada, pensa que está falando com algum excêntrico que as vezes se veste de gente normal e sai na rua. Para estes, um lembrete: ganhar a vida montando cavalos de Adestramento é bem mais excêntrico.

Se você monta, já foi instruído (talvez aos berros) a alterar a posição de uma ou várias partes do corpo com o cavalo trotando ou galopando. Certamente foi um momento frustrante, já que temos importantes limitações de coordenação, força, mobilidade e consciência corporal que impedem uma equitação correta. Muitas vezes não temos nem mesmo consciência dessas limitações. Melhorar a elasticidade, aprimorar o equilíbrio e a consciência corporal, bem como tonificar certos músculos que não usamos normalmente, portanto, é imprescindível para montar bem. Além disso, montar a cavalo, no longo prazo, pode acarretar lesões diversas. Aprender criteriosamente posturas do Yoga (chamadas asanas, em sânscrito) é um caminho bastante completo para lidar com essas dificuldades e permite que a pessoa aos poucos se livre dessas limitações (ou melhor, de parte delas) e tenha um assento mais correto e ajudas mais eficazes.

Coisas que também dá para providenciar na academia, certo?

Ocorre que aprender asanasé um processo lento de conquista de novas possibilidades com o corpo, onde o resultado é percebido em posturas cada vez mais estáveis, confortáveis e interessantes plasticamente. Exatamente aquilo que, ao longo de anos, desejamos de um cavalo de Adestramento: uma bela pirueta, por exemplo. A prática de asanasé uma chance de entendermos um pouco melhor o que é dominar, aos poucos, a habilidade de realizar coisas que antes não éramos capazes. Compreender melhor esse processo ajuda-nos a estar atento e a corrigir expectativas arrojadas demais: torna-se mais natural questionar se o cavalo está apto naquele instante a realizar uma certa figura ou se temos que dar um passo atrás para prepará-lo melhor.

Hora de voltar para o Yoga, e para mais um pouco de sânscrito. O pré-requisito para chegar a qualquer asanaé uma planejada e cuidadosa seqüência de movimentos coordenados com a respiração, que aos poucos constrói a postura final, e a essa seqüência dá-se o nome de vinyasa. Ele garante as duas características fundamentais do asana: estabilidade (shtiram) e conforto (sukham). Se uma postura é instável e não houver conforto possível, isso significa que o corpo não está fisicamente preparado para aquilo. Retomando o exemplo da pirueta, as semelhanças são incríveis: o cavalo somente irá apresentar as qualidades que definem uma boa pirueta (flexibilidade, leveza, cadência, regularidade) se a preparação for adequada, isto é, se mostrar um aumento da atividade e da reunião antes de iniciá-la. É possível descrever muitos paralelos como esse, e apropriar-se deles implica em uma relação mais empática com o cavalo, enraizada em compreensão, perseverança e paciência — virtudes bem vindas para qualquer cavaleiro.

Praticando Yoga nos propomos a focar na própria postura, relaxar músculos desnecessários, tomar consciência da respiração. Este último é um aspecto chave: conectar-se com a própria respiração abre portas para estar atento ao momento presente, algo imensamente necessário com cavalos. O que se quer no Adestramento de alto nível é dançar com o cavalo, passando a impressão de que existe facilidade e leveza, com as articulações do cavaleiro em sintonia fina com os movimentos do cavalo. Tal domínio sobre o corpo só é possível através de uma respiração ritmada, e treinar isso fora do cavalo é, para dizer o mínimo, benéfico.

Há milênios os yogisfazem uso de certas técnicas respiratórias com o intuito de criar condições apropriadas para o estado meditativo. Isso funciona graças a uma relação bastante estreita entre o padrão respiratório e o estado mental: quando estamos ansiosos ou irritados, a respiração torna-se mais superficial e a freqüência respiratória mais acelerada. Da mesma forma, quando estamos serenos e em repouso, a respiração tende a ser mais profunda e lenta. É possível, com treino, fazer uso da respiração para, saindo de um estado de agitação mental, obter concentração e foco, tão necessários para montar — e muito mais para competir.

Vejamos na prática:

Ter o hábito de prestar atenção na própria respiração a fim de não se perder no turbilhão de pensamentos que o tempo todo nossa mente produz é especialmente importante nas competições. Se notarmos como estamos respirando, fica mais fácil perceber, no momento de estresse — quando o cavalo se distraiu com as flores e desviou da cerca na espádua adentro — que somos imediatamente assaltados por pensamentos do tipo “perdi nota”, “agora todos já sabem que meu cavalo assusta com as flores”, “não consegui controlar meu cavalo”, ou pior: “por que fui me inscrever nessa prova?” e “esse cavalo não presta”. O simples fato de perceber, por um breve instante, que isso era apenas um pensamento produzido automaticamente pela mente (e não necessariamente a realidade) abre a possibilidade de agir pró-ativamente e com maior rapidez.

Livros mais modernos de Adestramento recomendam, ainda que superficialmente, o uso de técnicas de visualização para melhorar o desempenho em competições. É o caso, entre outros, de Dressage with Kyra(Kyra Kyrklund e Jytte Lemkow, 1996, Kenilworth Press). Uma vez que exista a habilidade técnica para montar corretamente as figuras de certo nível, a visualização detalhada da reprise em questão, como um filme, onde você executa os comandos com o máximo de correção possível, contribui para uma performance mais próxima ao melhor possível. Desnecessário dizer o quanto que um estado de profunda concentração e relaxamento pode aumentar o sucesso de tal visualização.

Diz-se que um dos motivos dessa visualização é poder simular a experiência de montar a reprise várias vezes sem necessariamente repeti-la demasiadamente com o cavalo, o que seria contra-produtivo. Mas então, como planejar a visualização de algo que não podemos repetir, digamos, dez vezes por semana? Será que conhecemos uma reprise bem o suficiente para aprender essa técnica?

Acredito que a visualização deve ser treinada antes de ser colocada em prática como uma ferramenta da psicologia do esporte. No Yoga, existe a possibilidade de praticar seqüências dinâmicas de asanas, como por exemplo a “saudação ao sol” (surya namaskar), onde a transição entre as posturas e o ritmo (sincronizado com a respiração) são fundamentais. Após repetir várias vezes toda a seqüência, torna-se cada vez mais fácil, com o corpo parado, visualizar a seqüência completa, com suas transições fluidas e o ritmo estável — uma bela chance de conquistar cada vez melhor essa técnica para então utilizá-la com a reprise, algo muito mais complexo, extenso, e que envolve o cavalo.

Finalmente, deixo claro: Yoga é bem mais do que esse pequeno recorte que propus aqui pode sugerir. Se você já experimentou, concorda comigo. Se você um dia começar, e descobrir muito mais, provavelmente estará certo: é isso aí!